Gianni Infantino sorri. Sempre sorri. Enquanto sorri, o futebol perde fôlego. Nos últimos anos, a FIFA resolveu testar até onde o esporte aguenta ser esticado. Mais jogos, mais seleções, mais torneios, mais datas. Menos descanso, qualidade e futebol.
Os clubes reclamam? Reclamam. Os jogadores estouram fisicamente? Estouram. A resposta da FIFA? Criar mais competições. Primeiro veio a genialidade de aumentar a Copa do Mundo de 32 para 48 seleções. A justificativa é sempre bonita: inclusão, globalização, crescimento do esporte.
Na prática, mais jogos, mais viagens, mais desgaste — e mais dinheiro circulando no caixa da entidade. Depois, surgiu a nova Copa do Mundo de Clubes. Recebida com desconfiança, rejeição e críticas generalizadas, acabou funcionando melhor do que se imaginava.
Não porque fosse necessária, mas porque futebol grande ainda resiste, mesmo sufocado. O problema não é uma Copa a mais. É o vício em não saber parar. Clubes disputam estaduais, nacionais e continentais. Cedem jogadores a eliminatórias intermináveis.
Sofrem com calendários que não se conversam nem por decreto. UEFA e Conmebol vivem em guerra fria permanente, disputando datas, espaço e protagonismo. E o atleta, essa figura inconveniente que precisa correr, respirar e dormir, que se vire.
O meio do ano virou território de ninguém. Para europeus, é o fim da temporada. Por outro lado, para seleções, é o auge. Para técnicos, é a queda. Para o torcedor, é o futebol mal jogado. Dizem que isso não afeta todos. Claro que afeta. Afeta quem importa.
A Copa que ninguém pediu — mas alguém precisava
Para agradar gregos, troianos e principalmente eleitores, a FIFA, por exemplo, agora flerta com uma nova obra-prima: uma Copa paralela à Copa do Mundo. Uma espécie de série B global, reunindo seleções mal ranqueadas.
Austrália, Camarões, Chile, Venezuela. E também Curaçao, Cabo Verde, Uzbequistão, Nova Zelândia, Ilhas Virgens, Macau, Tanzânia, Porto Rico. É o futebol como feira livre. Todo mundo entra, desde que pague ingresso. Nos bastidores, a conversa é ainda menos romântica.
A ideia ganhou força quando surgiu a possibilidade de a Rússia criar um torneio alternativo. Política, sempre ela, empurrando o futebol para onde interessa. Gianni Infantino tem eleição antes da próxima Copa. Coincidência? No futebol da FIFA, coincidência é artigo de luxo.
Mais torneios significam mais aliados, votos e poder. Enquanto isso, o jogo perde intensidade, o craque perde brilho e o calendário vira uma piada de mau gosto. Se essa moda pega — e tudo indica que vai pegar — o futebol caminha para uma decadência sem alarde, mas profunda.
Não acaba de uma vez. Vai morrendo aos poucos. E quando perceberem, talvez seja tarde demais. Mas Gianni Infantino continuará sorrindo. E fingindo surpresa. Afinal, ele vem somando a cada dia votos para se perpetuar no poder.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


