O Fluminense, antes de mais nada, está pronto para arrebentar. Por outro lado, o Vasco promete não fazer feio. O Botafogo, por sua vez, brigará pelas primeiras posições. Enquanto o Flamengo, segundo alguns, lutará para não cair no estadual. Tudo isso em janeiro.
Tudo isso dito com a segurança de quem garante ter informação. O futebol brasileiro, antes de tudo, virou um tribunal permanente. A cada live, a cada post, alguém sentencia destinos. Técnico tem que sair. Elenco é curto. Reforços são urgentes. A soberba cobra seu preço.
O campeonato mal começou e já terminou dezenas de vezes nas redes sociais. O torcedor, que gosta de futebol e busca entender seu time, fica espremido entre fake news, “furos” anunciados aos gritos e os novos cientistas da bola, especialistas em prever o que não se sustenta.
Informação virou espetáculo. Opinião, decreto. Análise, torcida disfarçada. Há algo cansativo nisso tudo. Vive-se de crise. Se não existe, inventa-se. Se não rende clique, exagera-se. O futebol passou a ser tratado como novela ruim, que precisa de conflito permanente para manter a audiência.
E o mais curioso é que quase nada disso passa pelo jogo. Critica-se planejamento antes de ele existir. Cobra-se resultado de quem mal voltou das férias. Confunde-se serenidade com soberba. Pede-se cabeça antes do primeiro tropeço.
Quando o barulho substitui o futebol
Nada disso significa passar pano para dirigentes incompetentes, gestões temerárias ou clubes que gastam o que não têm. Pelo contrário. Há muito a cobrar, especialmente de quem ignora o fair play financeiro sob o pretexto da “adaptação”.
Há clubes sem dinheiro contratando como se fossem saudáveis, empurrando dívidas para o futuro e apostando que alguém pagará a conta. O debate esportivo precisa ser duro, mas honesto. Crítico, mas responsável. Há espaço para ironia, indignação e denúncia.
O que não há é justificativa para transformar o futebol em um festival diário de previsões vazias. Ainda existem canais que informam, analisam, contextualizam. Informação de verdade não precisa gritar. Ela se impõe com o tempo. E o torcedor reconhece.
Talvez este seja um ano atípico, de calendário novo, de sobe e desce na tabela, de surpresas e frustrações. Faz parte do jogo. O que não pode fazer parte é essa necessidade permanente de escândalo para gerar audiência.
Falo como quem acompanha o futebol há tempo suficiente para saber que janeiro raramente diz a verdade sobre dezembro. A bola ainda vai rolar. E quando rolar, como sempre, vai desmentir muita gente.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte





