Marco Marcondes: onde está essa tal Copa do Mundo?

A 125 dias do pontapé inicial, Nova York ignora o maior evento do planeta — e o silêncio chama mais atenção que qualquer campanha
Marco Marcondes: onde está essa tal Copa do Mundo?
Foto: Divulgação/ Instagram @gianni_infantino

Faltam cerca de 125 dias para o início da maior Copa do Mundo da história. Quarenta e duas seleções, três países-sede, bilhões envolvidos e a promessa de um espetáculo global. Seria natural imaginar que, a essa altura, o clima já estivesse espalhado pelas ruas — especialmente nos Estados Unidos, país que transformou marketing em ciência e vitrine.

Mas estou em Nova York. E a Copa simplesmente não existe.

Na chamada Big Apple, onde o mundo costuma acontecer antes, o que se vê é silêncio. Nenhuma ativação relevante. Não há campanha visível. Zero há avalanche de produtos oficiais. Times Square, que vende até ar engarrafado se for preciso, não exibe chamadas do torneio. Chelsea, Brooklyn, Queens — nada. Nem mesmo em Nova Jersey, que receberá jogos decisivos, há sinais de mobilização.

Não é exagero. É constatação.

Fala-se em milhões de ingressos vendidos. Talvez seja verdade. Mas venda antecipada não cria ambiente. Copa do Mundo é construção de expectativa, ocupação de espaço, invasão simbólica. Até agora, ao menos aqui, não há invasão alguma.

Encontrei, para não dizer que não vi nada, bonés e copos discretos numa grande farmácia, além de garrafas de refrigerante com selo alusivo ao torneio. Material tímido, quase constrangido. Nada que lembre a maior competição do planeta.

Enquanto isso, os canais esportivos respiram outras prioridades. Olimpíadas de inverno, basquete, hóquei. Bares lotados para acompanhar jogos locais, mesmo com o frio intenso que domina a região. A NFL encerrou sua temporada com uma final que parou o país. Isso, sim, teve mobilização.

Um Mundial invisível?

A pergunta que fica é inevitável: onde está a FIFA? Está confortável com números de venda e contratos fechados? Acredita que o clima surgirá magicamente nas últimas semanas? Ou aposta que o futebol, por si só, resolve tudo?

Também resta saber se o cenário é exclusivo de Nova York ou se Canadá e México vivem algo diferente. Talvez outras cidades estejam mais envolvidas. Talvez o marketing ainda esteja guardado para o momento certo. Ou então, a política e o debate sobre imigração estejam contaminando qualquer tentativa de ativação mais ousada.

O fato é que, numa das cidades mais importantes do planeta, a Copa ainda não chegou.

E isso, a quatro meses do início, é no mínimo curioso.

Continuo observando. Porque Copa do Mundo não se esconde. Quando ela começa realmente a existir, todo mundo sente. Aqui, por enquanto, ninguém percebe.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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