Marco Marcondes: por que a Copa ainda não mobiliza os Estados Unidos?

Entre Broadway lotada, ligas nacionais em alta e um calendário esportivo saturado, o Mundial parece aguardar sua vez no radar americano
Marco Marcondes: por que a Copa ainda não mobiliza os Estados Unidos?
Foto: Divulgação/ Instagram @gianni_infantino

Tentei pensar em Copa do Mundo. Mas, fui à Broadway. Teatro lotado, produção impecável, público diverso. Um musical premiado ambientado em Cuba, atravessando décadas de história e música. Ao meu lado, um americano comenta, encantado: “It’s truly a brilliant show, and how talented they are!”.

Não era apenas elogio artístico. Era reconhecimento da força cultural que nasce justamente da mistura. Em meio às discussões recentes sobre imigração, endurecimento de políticas e tensões diplomáticas — temas que ocupam o noticiário americano diariamente — a cena tinha algo simbólico.

Ali estavam pessoas de diferentes origens, dividindo espaço, cultura e aplausos. A Broadway é isso: um cruzamento permanente de mundos. No intervalo, puxei conversa. Perguntei o que ele esperava da Copa do Mundo. A resposta foi tão simples quanto reveladora.

Ele mora na Louisiana, estava em Nova York apenas para aproveitar o fim de semana, e disse: “Nós vivemos os eventos mais perto da sua realização. Acontecem tantos que escolhemos os mais importantes. Quanto ao Mundial, onde eu moro, estamos pouco envolvidos”.

Não houve desdém. Houve pragmatismo. Os Estados Unidos são movidos por calendário próprio. A NFL acabou há poucos dias. A NBA se aproxima dos playoffs. A NHL também.

As Olimpíadas de Inverno ocupam espaço. A MLS começa mais uma temporada — a última nesse formato atual. É uma engrenagem esportiva intensa, quase sem respiro. A Copa, por enquanto, é apenas mais um item na agenda.

Talvez o clima venha na hora certa

Talvez a Copa do Mundo simplesmente ainda não tenha chegado ao seu momento. Por aqui, eventos são consumidos quando entram oficialmente no radar. A mobilização costuma acontecer nas semanas decisivas, quando o marketing acelera e a narrativa se impõe.

O que ficou claro naquela noite é que a diversidade é real. Restaurantes e bares, no Mundial de Clubes, viraram pontos de encontro de torcedores estrangeiros. A cidade respondeu quando o futebol ocupou o espaço.

Talvez seja esse o segredo: não esperar que o americano médio abrace o torneio sozinho, mas entender que a força estará na soma das culturas que já vivem aqui. Nova York é um mosaico. Canadá e México também trazem sua própria identidade ao projeto.

Se houver organização eficiente — algo que americanos, canadenses e mexicanos costumam entregar — e se os povos ocuparem os estádios como ocuparam o teatro, a festa pode ganhar contornos globais de verdade.

A globalização, afinal, não se faz apenas por mídia ou tecnologia. Ela se materializa quando diferentes sotaques celebram o mesmo espetáculo. Talvez a Copa ainda esteja silenciosa. Mas silêncio, por aqui, não significa ausência. Pode significar apenas que o show ainda não começou.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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