Marco Marcondes: por que Flamengo e Palmeiras não precisam de crise?

Em um calendário sufocante e bilionário, exigir perfeição eterna ignora a lógica do futebol
Marco Marcondes: por que Flamengo e Palmeiras não precisam de crise?
Foto: Gilvan de Souza/ Flamengo

O Flamengo ganha praticamente tudo em um ano. Joga mais de 80 partidas. Tem pouco mais de 20 dias de férias. Antecipam uma pré-temporada que já é curta por natureza. E, ainda assim, a cobrança é como se nada tivesse sido conquistado.

Me perdoem os torcedores rubro-negros e palmeirenses, mas acham que vão vencer sempre? Isso poderia até acontecer em um cenário ideal. Mas com a quantidade de jogos, viagens e torneios que os clubes disputam hoje, a conta chega. E chega rápido.

Primeiro ponto: elencos fortes significam muitos convocados. Durante a Data FIFA, parte do grupo descansa. Os titulares? Cruzam o mundo, jogam por suas seleções e, muitas vezes, descem do avião direto para o campo. O corpo sente. A mente também.

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Segundo ponto: a cobrança exagerada. Parte da imprensa, por exemplo, parece procurar crise onde há apenas oscilação. Redes sociais, usadas por uma milícia digital, transformam derrota de time alternativo em catástrofe institucional e mundial.

Terceiro ponto: ninguém aguenta jogar tudo no limite o tempo inteiro. Nem fisicamente, nem emocionalmente. O favorito nem sempre vence. Nem sempre o melhor elenco ganha. É justamente isso que torna o futebol apaixonante.

Fase ruim não apaga estrutura

Um clube organizado financeiramente, com elenco forte e presença constante em finais, está no caminho certo — mesmo quando não conquista o título. O sucesso recente de Flamengo e Palmeiras não nasceu do acaso. Nasceu de gestão, investimento responsável e continuidade.

Pedir a cabeça de Filipe Luís ou de Abel Ferreira após uma sequência ruim é emocional — não racional. Vai trazer quem? Jorge Jesus? Pep Guardiola? O torcedor tem todo o direito de criticar. Mas precisa olhar os últimos dez anos antes de transformar o melhor em vilão.

O futebol não é matemática

O futebol brasileiro só cresce quando mais clubes se organizam. Imaginem Cruzeiro, Atlético-MG, São Paulo, Santos, Botafogo e Fluminense todos financeiramente fortes e estruturados. Quem ganha com isso? Todos.

Inclusive a competitividade continental. A hegemonia brasileira na Copa Libertadores da América incomoda quem comanda o futebol na América do Sul. O dinheiro investido incomoda. Mas isso é consequência de organização.

A lógica do negócio

Futebol é paixão, mas também é negócio bilionário. E no Brasil ainda estamos aprendendo a lidar com isso. Disputar finais significa receita, valorização de marca, fortalecimento institucional. Nem sempre virá o título.

Mas virá crescimento. Por isso, antes da próxima “crise”, vale respirar fundo. Oscilação não é fracasso. Perder não é sinônimo de terra arrasada. Às vezes, a gritaria diz mais sobre ansiedade do que sobre futebol.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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