Marco Marcondes: soberba ou pressão? O dia em que o Flamengo escolheu mudar

Demissão de Filipe Luís escancara a relação delicada entre diretoria e torcida
Marco Marcondes: soberba ou pressão? O dia em que o Flamengo escolheu mudar
Foto: Gilvan de Souza/ Flamengo

Parabéns, torcida do Flamengo. As faixas no Ninho do Urubu diziam “diretoria amadora” e “fora Filipe Luís”. Pois bem. A pressão funcionou. E o clube mostrou que, sim, é suscetível ao barulho externo — como tantos outros que já criticou no passado. Mas, vamos aos fatos.

Em um ano e meio, Filipe Luís conquistou cinco títulos. Fez campanha sólida no Mundial da Fifa, levou o time a uma final continental decidida nos pênaltis contra o poderoso Paris Saint-Germain e ainda deixou o clube classificado para a próxima edição do torneio internacional.

Recentemente, o Flamengo apareceu entre os melhores clubes do mundo, à frente do próprio PSG em rankings internacionais. A Europa reverenciava o time. A imprensa estrangeira elogiava o treinador. E, ainda assim, a demissão aconteceu em questão de minutos — como se nada disso tivesse peso.

A decisão, antes de tudo, lembra movimentos do passado. Sai Dorival Júnior, entra Vítor Pereira. Agora sai Filipe Luís e chega Leonardo Jardim. A pergunta é inevitável: o problema era o desempenho ou a relação interna?

Desde que assumiu, o presidente Luiz Eduardo Baptista nunca pareceu totalmente confortável com a permanência de Filipe Luís. Politicamente, era difícil tirar um treinador campeão e com respaldo da torcida. Mas bastou um início irregular de temporada para que o cenário mudasse. E não, não se ganha sempre.

A cultura da cobrança permanente

Cobrança faz parte. Mas perseguição? Pressão na porta do CT? Jogador sendo abordado fora do horário de trabalho? Isso não é paixão — é excesso. O Flamengo cresceu nos últimos anos por organização financeira, gestão e competitividade constante.

Não por decisões tomadas no calor da arquibancada. Existe uma linha tênue entre exigir e sabotar. Entre apoiar e desestabilizar. As “viúvas” de Jorge Jesus ainda estão por aí. Sempre haverá a sombra do Mister. Mas vale lembrar: ele saiu por decisão própria, rumo ao Benfica. O futebol segue. O tempo passa.

E agora?

Domingo começa uma nova fase. Pode dar certo? Claro que pode. O elenco é forte. A estrutura é sólida. O Flamengo segue como potência continental. Mas fica a reflexão: quando a pressão vira soberba, o risco aumenta. Jogadores sentem. Técnicos sentem. O ambiente muda.

No futebol brasileiro, por exemplo, a torcida acredita que manda. E dirigentes, muitas vezes, fingem que obedecem. O problema é quando decisões estratégicas passam a ser respostas emocionais. Hoje é dia de “lua vermelha”, dizem os supersticiosos.

Mudanças feitas sob tensão raramente nascem leves. Essa é uma lição que Luiz Eduardo Baptista precisa aprender. Que o Flamengo continue vencedor. Mas que não esqueça o caminho que o levou até aqui. Porque destruir é rápido. Construir leva anos.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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