Na noite deste sábado (7), em Los Angeles, no Peacock Theater, palco do KnuckleMania 6, o que se viu não foi apenas mais uma vitória de Andrei Arlovski. Pelo contrário, diante de um público numeroso e barulhento, que lotou a arena e acompanhou cada golpe de pé, o bielorrusso entregou uma aula silenciosa — daquelas que não aparecem apenas no cartel, mas saltam aos olhos de quem entende o jogo.
Além disso, o evento ganhou repercussão imediata nas redes sociais e entre nomes históricos do MMA, sobretudo pela presença de um ex-campeão do UFC em um ambiente extremo como o boxe sem luvas. Ainda assim, Arlovski não demonstrou estranhamento. Pelo contrário: voltou a fazer o que parece ter se tornado regra quando encontra Ben Rothwell — resolver.
Leitura antes da força
Desta vez, fora do octógono. Sem luvas. Sem proteção. Num território que, em tese, favoreceria a força bruta. No entanto, Arlovski escolheu outro caminho: o da leitura.
O resultado oficial — interrupção por nocaute técnico aos 1:14 do terceiro round, em razão dos cortes profundos no rosto de Rothwell — conta apenas parte da história. O essencial, portanto, se construiu antes, nos detalhes.
Desde o primeiro round, Arlovski assumiu o controle do espaço. Não foi imposição física pura, mas leitura territorial. Assim, empurrou Rothwell contra as cordas rígidas do BKFC, reduziu ângulos e limitou respostas. No segundo assalto, por sua vez, a diferença de velocidade ficou ainda mais evidente. Os diretos entravam limpos, abrindo um corte que mudaria definitivamente o rumo da luta.
O outro lado do cage
Rothwell, 44 anos, não chegou ali por acaso. Após deixar o UFC, encontrou no boxe sem luvas um novo fôlego. Nesse contexto, dominou adversários, construiu respeito e chegou ao cinturão dos pesos-pesados com autoridade ao nocautear Mick Terrill em apenas 36 segundos, em janeiro.
Até ali, parecia ter encontrado o território perfeito para prolongar a carreira em alto nível. Porém, enfrentar Arlovski tem um custo extra: ele não luta apenas contra o adversário. Ele luta contra o momento do outro.
Mais hesitante do que em apresentações anteriores, Rothwell sofreu para acompanhar a leitura, o tempo e a precisão do ex-campeão do UFC. Nos segundos finais do segundo round, uma combinação dura o fez recuar nas cordas. Ele não caiu, mas, ainda assim, ficou evidente que estava machucado.
Quando a experiência decide
Antes do terceiro round, o árbitro chamou o médico. A luta seguiu. Entretanto, o destino já estava escrito.
Quando o combate foi novamente interrompido para nova avaliação dos cortes, não havia mais discussão. Fim de luta. Nesse momento, o público respondeu com aplausos — não apenas pelo desfecho, mas pela demonstração clara de controle e experiência de Arlovski.
Três lutas, duas eras, um mesmo vencedor
Com isso, o bielorrusso fez algo raro: venceu o mesmo adversário três vezes, em dois esportes diferentes, separados por quase duas décadas. A primeira, em 2008, no Affliction. A segunda, mais de dez anos depois, no UFC. A terceira, agora, no boxe sem luvas.
Aos 47 anos, Arlovski segue invicto desde que deixou o UFC em 2024. Desde então, são quatro vitórias por interrupção, distribuídas entre BKFC, Dirty Boxing Championship e Misfits Boxing — organizações com propostas distintas, regras próprias e exigências específicas. Poucos transitam assim. Menos ainda vencem.
O que vem pela frente
O que vem agora? Se depender do momento, Arlovski não dá sinais de desaceleração. Seja em uma possível defesa de cinturão no BKFC, seja em novos desafios híbridos ou até em lutas especiais que valorizem seu nome e sua história, o veterano segue relevante — e competitivo.
Legado em construção
Arlovski não está apenas competindo. Está administrando o próprio legado, luta após luta, com a inteligência de quem aprendeu a sobreviver ao tempo — e não a enfrentá-lo de frente.
No fim, Arlovski fez o que sempre faz quem entende o jogo: leu o momento, executou o plano e saiu inteiro.
No boxe sem luvas, no MMA ou na própria trajetória, vence quem sabe atravessar o caos com lucidez.
Não tem colé-colé.





