Artur Mariano revisita a era dura do vale-tudo e reflete sobre o legado no MMA

Lenda do vale-tudo e do muay thai, Artur Mariano analisa a evolução do esporte, compara gerações e aponta a formação de campeões como sua maior conquista
Arthur Mariano em registro histórico do vale-tudo, representando a era mais dura dos esportes de combate e seu legado no MMA.
Foto: Reprodução

Forjado em uma fase em que o vale-tudo era sobrevivência antes de espetáculo, Artur Mariano construiu sua trajetória longe de qualquer glamour. Campeão do Grand Prix do IVC 2, invicto no muay thai e vencedor de confrontos emblemáticos, ele atravessou a era mais dura dos esportes de combate até se tornar uma referência também fora do cage, como treinador, líder e formador de campeões.

Em entrevista exclusiva à RTI Esporte, Artur revisita os anos 90, compara os lutadores daquela época com a geração atual do MMA, comenta lutas que não aconteceram, projeta como se encaixaria no cenário moderno e reflete sobre o que considera sua maior vitória: o legado construído por meio do ensino e da formação humana.

1) Você vem da era mais dura do vale-tudo, venceu nomes históricos como Wanderlei Silva no IVC. O que aquele período forjou em você como atleta e como homem dentro do esporte?

Aquele período forjou caráter antes de forjar técnica. A gente não tinha glamour, não tinha segurança, não tinha marketing. Era luta de verdade — sobrevivência, honra e respeito. Como atleta, me tornei completo, resistente física e mentalmente. Como homem, aprendi responsabilidade, humildade e a entender que o verdadeiro adversário é você mesmo.

Quem passou por aquela era aprendeu a lidar com pressão extrema, medo e dor — e isso vale para a vida inteira, não só para o esporte. Sou muito grato aos mestres que fizeram parte da minha trajetória: os grão-mestres Luiz Alves, Osvaldo Alves e João Ricardo, e, na Holanda, Thon Haring, Peter Veschurren e Milton Felter.

2) Comparando os atletas da década de 90 com os lutadores atuais do MMA, o que mudou de verdade — e o que, na sua visão, se perdeu ou ainda faz falta hoje?

Mudou muito a preparação. Hoje o atleta é mais científico, tem estrutura, nutrição, equipe multidisciplinar e um jogo mais estratégico. Isso é evolução, sem dúvida.

Mas, em muitos casos, se perdeu a essência: a fome, a dureza mental, a capacidade de suportar o caos. Na nossa época, não existia plano B. Hoje vejo atletas tecnicamente excelentes, mas que quebram quando a luta sai do roteiro. Falta, às vezes, aquele espírito bruto de guerreiro que a necessidade criava naturalmente nos anos 90.

3) Se Artur Mariano estivesse hoje ativo, competindo no MMA moderno, que tipo de adversário você gostaria de enfrentar para se testar nessa nova era?

Sempre gostei de desafios reais, nunca de lutas fáceis. Gostaria de enfrentar um atleta completo, bem ranqueado, que representasse essa nova geração — alguém forte no wrestling, disciplinado, mas que aceitasse trocar.

Não penso em um nome específico, penso em perfil. Alguém que me obrigasse a usar tudo o que aprendi no muay thai, no vale-tudo e na vida. Lutei desde 66 kg até o peso pesado na minha carreira. Hoje, pela estatura e pelos cortes de peso atuais, provavelmente competiria entre 78 kg e 84 kg. Luta boa é aquela que te tira da zona de conforto — essas são as melhores.

4) Existe uma “luta dos sonhos” que você gostaria de ter feito e que, por algum motivo, não aconteceu?

Existem algumas, sim. A revanche com Wanderlei Silva seria uma grande guerra. Ela quase aconteceu logo depois da primeira luta, mas não houve acordo financeiro. Tenho enorme respeito pelo Wanderlei — ele é um monstro sagrado do MMA.

Já nos encontramos algumas vezes, inclusive no Japão, sempre de forma amigável. Aprendi a não carregar frustração. A luta que não aconteceu abriu espaço para um legado maior: formar campeões, construir uma escola e deixar uma marca no esporte. Às vezes, o que não acontece dentro do ringue acontece de forma muito maior fora dele.

5) Olhando para toda a sua trajetória, qual você considera sua maior conquista: dentro do cage ou fora dele, como treinador e formador de campeões?

Tenho ótimas lembranças de terminar minha carreira invicto no muay thai e de ter sido campeão do Grand Prix do IVC 2. Isso faz parte da minha história. Mas, sem dúvida, minha maior conquista está fora do cage.

As vitórias como atleta acabam quando o braço baixa. O que fica é o que você constrói nas pessoas. Ter formado campeões mundiais, alavancado carreiras, contribuído com a Confederação Brasileira de Muay Thai, criado uma metodologia, fundado a Champions Factory e impactado vidas no Brasil e no mundo é o que mais me orgulha.

O verdadeiro campeão é aquele que cria outros campeões — no esporte e na vida.

“Gostaria de agradecer à RTI Esporte e a você, Rafael Luna, pela oportunidade de falar da minha carreira neste ambiente tão especial que vocês constroem.”

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