Especialista afirma: “o ideal sempre vai ser grama natural para prática do futebol

Enquanto clubes defendem o piso artificial por questões estruturais, jogadores criticam o impacto no desempenho e na recuperação; fisioterapeuta aponta riscos cumulativos
Especialista afirma: “o ideal sempre vai ser grama natural para prática do futebol”
Foto: Vitor Silva/ Botafogo

Antes de mais nada, a discussão sobre o uso do gramado sintético voltou ao centro do futebol brasileiro nas últimas semanas. Jogadores de diferentes clubes e gerações se manifestaram contra o piso artificial, alegando prejuízos ao desempenho, maior desgaste físico e riscos à integridade corporal ao longo da temporada. O movimento ganhou força nas redes sociais e expôs o incômodo de atletas que defendem a grama natural como padrão ideal para a prática do futebol profissional.

Do outro lado, clubes que adotaram o gramado sintético defendem a superfície com base em critérios técnicos, durabilidade, redução de custos de manutenção e certificações internacionais. Dirigentes argumentam que muitos campos naturais no país apresentam condições inferiores e sustentam que o debate deveria envolver a qualidade geral dos gramados, não apenas o tipo de piso utilizado.

Em meio à polêmica, o fisioterapeuta das estrelas Fábio Marcelo falou em entrevista exclusiva à Agência RTI Esporte e explicou por que se posiciona contra o uso do gramado totalmente sintético no futebol profissional. “Esse é um tema, de fato, que gera muita polêmica. E eu sempre vou ser a favor do gramado natural. O sintético, em termos de piso para a prática do futebol, ainda tem muitas restrições por conta da adaptabilidade e de tudo que ele dá de retorno”, afirmou.

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Especialista alerta para a alternância de jogos entre gramado sintético e natural

Segundo Fábio, uma das principais diferenças está na rigidez do piso. “Ele é um piso mais duro. Quando o atleta corre, cada pisada gera um impacto de três a quatro vezes o peso corporal. Num piso mais duro, a força de reação do solo é maior, e isso gera, ao longo do tempo e até num próprio jogo, um período de recuperação pós-jogo maior.”

Fábio Marcelo detalha que a diferença no tempo de recuperação impacta diretamente o calendário apertado do futebol brasileiro. “Se um atleta que joga numa grama natural, considerando que o campo é bom, se recupera em torno de um dia, o atleta que joga na grama sintética tende a se recuperar em dois a três dias. Jogando a cada três dias, esse atleta não vai ter uma condição ideal de recuperação para o próximo jogo.”

De acordo com ele, o problema não está apenas no momento da partida. “Isso cria uma situação de acúmulo de estresse mal dissipado. Muitas vezes, a lesão não ocorre necessariamente na grama sintética. Ela pode acontecer na grama natural, mas pela fadiga acumulada que não foi eliminada por conta desse aumento do estresse articular e muscular.

”Outro fator citado é a temperatura da superfície. “Dependendo do calor, a grama sintética esquenta mais. O gasto energético é maior, há um calor de retorno do solo, e isso também atrapalha a performance”, explicou.

O gramado híbrido reduz incidência de lesões?

O fisioterapeuta ressalta que, apesar das críticas, não há consenso científico definitivo sobre o tema. “Não existe um estudo científico robusto para dizer que o sintético causa mais lesão diretamente. Mas a gente pode entender com tranquilidade que ele passa a ser um fator de risco, mais um fator de risco, principalmente porque o recovery do atleta após o jogo é mais lento.”Fábio Marcelo também comentou sobre a diferença entre gramado sintético e híbrido.

“O híbrido tem uma porcentagem maior de grama natural. Pode variar de 5% a 15% de sintético. Não se compara a um gramado totalmente sintético. O híbrido oferece uma condição mais racional para a prática do futebol.” Na avaliação dele, o equilíbrio está na escolha do piso. “O ideal sempre vai ser a grama completamente natural. Mas, se formos fazer um balanço entre o híbrido e o sintético, o híbrido é bem melhor.”

O especialista ainda explicou que o debate não deve se limitar apenas ao número de lesões. “A gente discute muito se o campo sintético dá mais lesão. O campo natural também tem muitas lesões. A questão do sintético envolve desempenho, adaptação neurosensorial e neuromotora. Quando você muda o tipo de piso, o corpo sente.”

Por fim, Fábio Marcelo destacou quais regiões do corpo costumam ser mais afetadas. “A lesão mais comum no futebol é a muscular. A maior incidência é na coxa, sobretudo na parte posterior. Dentre os músculos posteriores, o bíceps femoral é o mais acometido. Também vemos lesões de panturrilha e anterior de coxa, mas a posterior da coxa lidera.”

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