O discurso é bonito, moderno, europeu. Fala-se em fair play financeiro, responsabilidade, equilíbrio. Na prática, o que se vê no Corinthians é o oposto: um clube atolado em dívidas que segue se comportando como se o dinheiro fosse um detalhe.
O caso de Memphis Depay é apenas o mais escancarado — e talvez o mais constrangedor. Fala-se em uma dívida na casa dos R$ 40 milhões com o jogador. Ao mesmo tempo, discute-se renovação de contrato, parcelamento, busca por empresas que topem bancar parte do problema.
Ou seja, não se resolve o passado e já se compromete o futuro.
Tudo isso em um clube cuja dívida ultrapassa os R$ 2 bilhões.
A pergunta é inevitável: isso é gestão ou improviso permanente?
Quando Memphis Depay chegou, havia um roteiro. Parte dos custos seria assumida por patrocinadores, o restante diluído em premiações, benefícios e acordos paralelos. Na teoria, um modelo “criativo”. Na prática, mais um capítulo da velha lógica brasileira: empurra-se com a barriga até não dar mais.
E quando não dá, parcela-se.
O mais curioso — ou preocupante — é a naturalização.
Trata-se uma dívida milionária com um jogador como se fosse detalhe operacional. Como se fosse possível sustentar um elenco, pagar funcionários, honrar compromissos e ainda carregar esse tipo de pendência sem impacto esportivo.
Mas o impacto aparece. Sempre aparece.
O Corinthians oscila, a pressão cresce, a política interna ferve. Fala-se em impeachment, troca de comando, mais uma ruptura. O ciclo se repete com uma precisão quase irritante: crise, promessa de reconstrução, decisões questionáveis, nova crise.
Quando o discurso não encontra a prática
Enquanto isso, a Confederação Brasileira de Futebol fala em implementar regras de fair play financeiro. Limites, controles, profissionalização. Tudo necessário. Tudo urgente. Tudo, por enquanto, distante da realidade.
Porque fair play financeiro não é conceito abstrato. É simples: não gastar mais do que se arrecada, não comprometer o futuro para resolver o presente, não transformar exceção em regra. No Corinthians de hoje, nada disso parece ser levado a sério.
E o mais grave: não é falta de potencial. Poucos clubes no Brasil têm a capacidade de arrecadação, engajamento e força de marca do Corinthians. Mas potencial sem gestão vira ilusão. E ilusão, no futebol, costuma custar caro.
Muito caro.
Enquanto isso, o time luta na tabela, a torcida se divide entre apoio e indignação, e a conta — essa sim — segue crescendo. Sempre crescente, sempre adiada, sempre esperando o próximo acordo, o próximo parceiro, a próxima aposta.
O nome disso não é estratégia.
É insistência no erro.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


