John Textor cai — e o Botafogo paga a conta de um sonho mal administrado

Afastamento expõe fragilidade da SAF e deixa o clube diante de um cenário de incertezas e possíveis danos estruturais
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte
Fotomontagem: Vinicius Teixeira/ Agência RTI Esporte

A decisão de afastar John Textor do comando do Botafogo não chega como surpresa. Apenas oficializa o que já se desenhava há meses: o projeto que prometia redenção começa a revelar seu custo real para o mercado.

O Tribunal Arbitral da FGV, ao atender ao pedido da Eagle Holding, não tratou apenas de uma disputa societária. Tocou no coração de uma SAF que sempre operou mais na narrativa do que na transparência. Quando se fala em “danos irreparáveis”, não é figura de linguagem — é diagnóstico.

John Textor foi, por muito tempo, o personagem ideal para um clube que precisava acreditar. Investiu, montou time competitivo, conquistou títulos relevantes e devolveu ao botafoguense algo que parecia perdido: orgulho. Mas o futebol não termina no apito final.

E é justamente fora de campo que o castelo começou a ruir. A lógica do grupo sempre foi clara, embora pouco debatida: jogadores como ativos circulando entre clubes da mesma rede, decisões estratégicas tomadas com base em interesses que nem sempre eram exclusivamente alvinegros.

Enquanto vencia, pouco importava. Quando parou de vencer, passou a incomodar. Agora, incomoda ainda mais. O silêncio da SAF neste momento é ensurdecedor. Nenhuma explicação, nenhum plano, nenhuma tentativa de conter a insegurança que se instala.

Dentro de campo, o time segue competindo, mas sob a sombra de um cenário que pode mudar radicalmente em questão de semanas. Transfer bans, dívidas, risco de saída de jogadores, instabilidade institucional. O roteiro é conhecido — e raramente termina bem.

Do herói ao risco institucional

A transformação de John Textor, de salvador a problema, revela mais sobre o ambiente do futebol brasileiro do que sobre o próprio empresário. Aqui, a carência por soluções rápidas costuma superar a necessidade de estruturas sólidas. Compra-se o discurso antes de entender o projeto.

O torcedor, que celebrou títulos depois de décadas de escassez, agora se vê diante de uma pergunta incômoda: valeu o preço? Porque o que se construiu em campo pode se desfazer com a mesma velocidade fora dele.

A Eagle assume? John Textor retorna? Haverá novos aportes ou um cenário de contenção? Ninguém responde. E enquanto não há resposta, cresce o risco de que o clube, mais uma vez, pague por decisões tomadas longe de sua realidade histórica.

O Botafogo não é ativo de portfólio. Não pode ser tratado como peça de um tabuleiro global. É instituição centenária, com peso, identidade e uma torcida que já suportou demais. O problema é que, no futebol brasileiro, essa lição costuma chegar tarde. E, quando chega, o dano já está feito.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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