Marco Marcondes: a Copa mais difícil da história não será pelo futebol

Entre logística inflada e política hostil, o Mundial de 2026 nasce sob suspeita antes mesmo de a bola rolar

A Copa do Mundo de 2026 já começou mal. Não no gramado, que ainda nem existe, nem na prancheta dos treinadores. Começou mal no ambiente. A maior Copa da história, inflada artificialmente para atender interesses comerciais, corre o risco de ser lembrada menos pelo futebol e mais pelo contexto político que a envolve — e que a ameaça.

Desde que Donald Trump reassumiu a presidência dos Estados Unidos, por exemplo, o Mundial passou a conviver com um desconforto permanente. A política migratória endurecida, as deportações em massa e o rigor extremo na entrada de estrangeiros criaram um paradoxo: como sediar o maior evento esportivo do planeta em um país que trata o estrangeiro como suspeito por definição?

O futebol depende de circulação, mistura, ocupação de ruas, aeroportos e estádios. Depende, sobretudo, de torcedores. E são justamente eles — especialmente latino-americanos, asiáticos e africanos — os mais impactados por esse cenário.

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Não por acaso, o Mundial de Clubes, usado como laboratório pela FIFA, começou com arquibancadas vazias e venda tímida de ingressos. O problema não era o torneio. Era o medo. Medo de ser barrado, confundido e de virar estatística migratória.

Por outro lado, a FIFA reagiu como sempre reage: marketing, discursos vazios e a tentativa de carimbar normalidade onde ela claramente não existia. O torneio acabou crescendo, torcidas chegaram, o brasileiro fez barulho, e o futebol — como costuma acontecer — funcionou como anestesia social. Mas anestesia não cura infecção.

Quando a política invade o gramado

A seis meses da Copa do Mundo, os números oficiais animam patrocinadores: ingressos vendidos, contratos de TV fechados, sorteio realizado. No papel, aliás, tudo funciona. Fora dele, o cenário é instável. Tensões diplomáticas, ameaças internacionais e atitudes unilaterais dos EUA reacendem um debate que a FIFA finge não ver: até onde vai sua responsabilidade política?

Circulam rumores de boicote. Talvez exagerados, talvez estratégicos. Mas sintomáticos. A entidade que baniu a Rússia por razões políticas e éticas agora silencia diante de um anfitrião que tensiona relações globais. Dois pesos, duas medidas, e muitos dólares envolvidos.

A Copa vai acontecer. Não porque seja segura, justa ou estável, mas porque é grande demais para falhar. O problema é o custo disso. Quando quase não se fala de futebol a um ano do maior torneio do mundo, algo está profundamente errado.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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