Marco Marcondes: Botafogo, Eagle e Textor: quando o céu cobra a conta

A SAF que resgatou o clube do abismo agora flerta com o risco clássico da falta de transparência e do personalismo
Marco Marcondes: Botafogo, Eagle e Textor: quando o céu cobra a conta
Foto: Vitor Silva/ Botafogo

O Botafogo ressuscitou. E isso não é pouca coisa. Saiu do inferno recente, atravessou décadas de escassez e voltou a frequentar o andar de cima do futebol sul-americano. Em três anos, aliás, fez mais do que em vinte.

Vice-campeão brasileiro em 2023, campeão em 2024, dono de uma Copa Libertadores da América inédita. Um roteiro improvável, quase milagroso, com assinatura clara: Eagle Holding Football e John Textor.

O americano, a princípio, virou redentor. Dono da SAF, dono da narrativa e, por um bom tempo, dono da razão. Montou um time forte, competitivo, vencedor. Além disso, trouxe jogadores caros, técnico badalado, devolveu autoestima ao torcedor.

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Parecia um projeto sólido. Mas parecia mais do que era. Porque o Botafogo nunca foi exatamente o centro do projeto. Era parte dele. Os jogadores anunciados como grandes investimentos do clube eram, por exemplo, ativos do grupo Eagle Holding.

Vestiam preto e branco, mas tinham destino traçado: Olympique Lyon, Crystal Palace, RWD Molenbeek. O sucesso esportivo vinha acompanhado de uma lógica empresarial que nunca foi devidamente explicada — nem discutida.

Porém, o castelo começou a rachar rápido. O técnico campeão durou um ano. Thiago Almada anunciou saída antes da hora. Luiz Henrique, no auge, foi negociado para o Zenit, da Rússia. Outras peças se despediram. O time se desfez logo depois do sonho máximo.

Não por acaso, 2025 virou um tropeço longo, com meses sem comando técnico, eliminações precoces e um discurso oficial que tratava o fracasso com desdém. John Textor, aliás, sempre teve facilidade para criar versões.

Em 2023, quando perdeu um título que estava nas mãos, acusou conspirações, arbitragem, CBF, rivais. Judicializou o futebol, tentou incendiar o sistema. Depois, em 2024, com títulos no bolso, virou herói. O torcedor comprou a ideia de que o atraso histórico seria compensado.

Quando o bastidor fala mais alto que o troféu

Hoje, o cenário é outro. O Olympique Lyon caiu para à segunda divisão da França. As dívidas da Eagle Holding vieram à tona. O Crystal Palace acabou sendo vendido. O Mundial de Clubes virou mais triunfo pessoal de Textor do que conquista estrutural.

E começam a circular números assustadores sobre a SAF do Botafogo: R$ 1 bilhão, R$ 1,7 bilhão, R$ 2 bilhões. Ninguém sabe ao certo. Transparência nunca foi prioridade.  Há ainda o rumor mais inquietante: a briga interna entre a Eagle Holding e John Textor.

Se isso acontecer, 2026 tende a ser caótico. Mais uma SAF mal gerida, dados nebulosos e um clube gigante refém de decisões personalistas. O torcedor, como sempre, aposta na sorte. Na esperança de que, mesmo errado, dê certo.

Mas a história recente do futebol brasileiro mostra o preço desse otimismo cego. Vasco, Fortaleza, tantos outros. Talvez já seja hora de discutir menos o salvador da pátria e mais o modelo. Antes que o céu vire purgatório outra vez.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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