Marco Marcondes: Dorival Júnior acerta ao provocar o debate — mas ele vai além dos estrangeiros

Técnico levanta debate sobre estrangeiros, mas o foco precisa estar na gestão, no fair play financeiro e na sustentabilidade dos clubes brasileiros
Marco Marcondes: Dorival Júnior acerta ao provocar o debate — mas ele vai além dos estrangeiros
Foto: Rodrigo Coca/ Corinthians

Já escrevi aqui que considero Dorival Júnior um dos melhores técnicos em atividade no país. Experiente, respeitado e vencedor. Justamente por isso, quando ele levanta um debate, vale a pena ouvir com atenção. Mas ouvir não significa concordar integralmente.

Após a vitória sobre o Athletico Paranaense, Dorival Júnior voltou a questionar o número de estrangeiros no futebol brasileiro. Citou a Itália como exemplo e sugeriu que o excesso de atletas de fora poderia reduzir o espaço para talentos nacionais.

É um ponto legítimo de discussão. Só que a realidade é mais complexa. Os jovens brasileiros não deixam de jogar aqui porque há estrangeiros ocupando vagas. Eles saem cada vez mais cedo. Antes mesmo dos 18 ou 19 anos, muitos já estão negociados com a Europa.

Basta observar que a maioria dos convocados por Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira atua fora do país. Não é o passaporte que esvazia o campeonato nacional — é o modelo de sobrevivência financeira e estrutural dos clubes.

A questão estrutural

Clubes brasileiros, em sua maioria, dependem da venda de promessas do Sub-17 e Sub-20 para fechar o caixa com saldo positivo. É assim que pagam dívidas e mantêm a operação funcionando. O problema, portanto, é estrutural.

Quando se fala em fair play financeiro, fala-se em responsabilidade, planejamento e sustentabilidade. A própria crise da Itália não se explica apenas por formação de base, mas por má administração e desorganização sistêmica ao longo dos anos.

Gestão, não nacionalidade

No Brasil, dois clubes se destacaram nos últimos 15 anos pelo processo de organização: Flamengo e Palmeiras. Coincidência ou não, são os que conseguem contratar com critério, repatriar jogadores e manter competitividade.

Em contraste, o Corinthians vive o paradoxo de salários milionários — como no caso de Memphis Depay — ao mesmo tempo em que enfrenta dívida bilionária. A culpa é do estrangeiro? Ou de decisões administrativas equivocadas?

Restringir estrangeiros resolveria esse cenário? Dificilmente. O torcedor brasileiro é impaciente. Colocar um jovem da base em um clássico e permitir que ele erre faz parte do processo — mas nem sempre há tolerância para isso. A pressão não vem de fora; nasce aqui.

Dorival tem mérito ao provocar o debate. O futebol brasileiro precisa, sim, discutir seu futuro. Mas talvez o caminho não seja limitar quem entra, e sim reorganizar quem administra. Porque, no fim das contas, o problema não está no passaporte. Está no balanço.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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