Queria falar de Dorival Júnior, mas antes preciso deixar algo claro: meu respeito por esse treinador é acima de qualquer crítica que possa aparecer nestas linhas. Poucos técnicos no futebol brasileiro conseguem, de forma recorrente, chegar a clubes em crise e transformá-los em times competitivos.
Ele faz isso como poucos. Vamos à história mais recente. Depois de quase um ano sabático, ele aceita o desafio do Ceará, em 2022. Em pouco tempo, organiza o time, faz a equipe jogar e coloca o clube na liderança da tabela. Uma ascensão meteórica.
Porém, o Flamengo, sempre ansioso e impaciente, resolve buscá-lo no Nordeste para tentar colocar ordem em um elenco estrelado e em um vestiário conturbado. Na despedida do Ceará, ele foi direto: disse que estava sendo convocado e que o Flamengo era uma oportunidade impossível de recusar.
Veio. E fez história. Ganhou a Copa do Brasil e a Copa Libertadores da América no mesmo ano. Sim, as duas. Ainda terminou o Brasileirão em quinto lugar. Mesmo assim, no último jogo, a torcida vaiou. Não era o futebol “envolvente” esperado. Seis meses bastaram para transformar títulos em desconfiança.
Como assim? Ele assumiu um time sem rumo, com diretoria instável e elenco rachado. Ainda assim, entregou dois dos maiores troféus do continente. A diretoria decidiu não renovar. Muito se falou. Pouco se explicou.
Dorival Júnior então seguiu para outro clube em frangalhos: o São Paulo. Vestiário pesado, ambiente desconfiado e cobranças constantes. Mais uma vez, arrumou a casa, recebeu reforços pontuais e, como se fosse rotina, conquistou mais uma Copa do Brasil.
Dorival Júnior tem o padrão que muitos insistem em ignorar
Na sequência, com a Seleção Brasileira vivendo um de seus momentos mais confusos, Dorival Júnior virou solução. Assumiu no lugar do “projeto” anterior, cercado de expectativas. Mas a impaciência falou mais alto. Jogadores em má fase, pressão absurda e uma goleada para o maior rival selaram sua saída.
Pouco depois, lá estava Dorival Júnior novamente, agora no Corinthians. Clube mergulhado em crise: lesões, atrasos salariais, impeachment de presidente e um ambiente pesado. Resultado? Final de 2025, mais uma Copa do Brasil conquistada.
A quarta da carreira. A primeira lá atrás, em 2010, com o Santos de Neymar. Dá para chamar isso de coincidência? Não dá. Dorival é, sim, um técnico copeiro. Desbancou nomes badalados, como Renato Gaúcho, com trabalho, leitura de jogo e gestão humana.
Se deixarem trabalhar, o Corinthians tem hoje um treinador comprometido e preparado para tirar um clube do caos e levá-lo a títulos. Isso não é sorte. Chama-se trabalho. E competência. Muita competência. Ele se chama Dorival Júnior.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


