A estreia de Flamengo e Palmeiras na Copa Libertadores da América não foi apenas sobre vencer fora de casa. Foi, sobretudo, sobre como vencer — e o que isso revela. No caso rubro-negro, a visita ao Cusco FC, a mais de 3.500 metros de altitude, já seria, por si só, um teste desigual.
Não pelo adversário, tecnicamente limitado, mas pelas condições que o futebol insiste em naturalizar. Jogar ali não é apenas competir, é sobreviver. Ainda assim, o Flamengo foi além da cautela: promoveu sete mudanças, administrou energia e jogou com inteligência.
Teve a bola, criou, controlou o ritmo. Nicolás De La Cruz e Bruno Henrique, por exemplo, deram dinâmica, enquanto o adversário apostava no recurso mais previsível: ligação direta e disputa física, muitas vezes tolerada pela arbitragem permissiva.
O jogo virou quando o banco entrou. Giorgian De Arrascaeta resolveu. E resolveu porque há diferença técnica — e planejamento.
Não foi espetáculo. Foi gestão.
O mesmo vale para o Palmeiras. Contra o Junior de Barranquilla, em Cartagena, o time começou devendo. Sofreu com o pênalti cedo, com o gramado ruim e com a própria falta de fluidez. Mas há uma diferença entre oscilar e se perder — e o Palmeiras, mesmo irregular, não se perde.
A resposta veio no segundo tempo, com ajustes e, principalmente, com a força do elenco. Empatou cedo, retomou o controle e deixou a sensação de que poderia mais. Não foi brilhante, mas foi suficiente. E, neste momento da temporada, “suficiente” virou elogio.
Porque ninguém ali está disposto a pagar o preço do excesso.
Quando vencer não é o principal
O que Flamengo e Palmeiras fizeram foi menos sobre imposição e mais sobre cálculo. Pouparam, rodaram, administraram. Não por desdém à Libertadores, mas por respeito ao calendário — esse adversário que não aparece na tabela, mas define campeonatos.
Enquanto isso, o Mirassol escreve sua própria história ao vencer o Lanús em sua estreia internacional. Bonito, simbólico, relevante. Mas até ali já se impõe a contradição: celebra fora e luta contra a parte de baixo da tabela dentro de casa.
É o futebol brasileiro em sua versão mais honesta.
No fim, a rodada inaugural deixa uma impressão que não cabe no resultado: os favoritos começaram bem, mas sem se entregar por inteiro. Porque sabem que a maratona cobra. E cobra caro.
A Libertadores seduz.
Mas é o Brasileirão que cobra a conta.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


