Antes de mais nada, o fair play financeiro no Brasil existe apenas como peça decorativa. Bonita no discurso, inútil, na prática. Todos sabem que ele foi aprovado, ajustado, reembalado, com início de adaptação marcado desde novembro passado. E todos seguem fingindo que não é com eles.
O problema não é só o regulamento. É a cultura. Clubes quebrados, aliás, agem como se estivessem saudáveis. Dívidas bilionárias convivem com folhas salariais pornográficas, contratos sem lastro e uma fé quase infantil de que alguém — uma SAF, um investidor, um milagre — vai apagar o incêndio.
O Corinthians, por exemplo, deve mais de R$ 2,7 bilhões e paga salário de estrela internacional. O Santos, por outro lado, carrega dívida na casa de R$ 1,6 bilhão, renova com Neymar e banca parte do salário de Gabriel Barbosa.
O São Paulo, mergulhado em crise, salários atrasados e mais de R$ 1,7 bilhão em débitos, ainda convive com vencimentos mensais que beiram R$ 1,5 milhão. O Cruzeiro, agora sob a aura do “milionário da SAF”, fechou contrato de R$ 2 milhões mensais com Gerson, ex-Flamengo e Zenit.
O acordo acabou sendo costurado mesmo com o clube devendo cerca de R$ 1,2 bilhão. E seguem contratando. Como se nada estivesse acontecendo. Botafogo, Vasco, Grêmio, Internacional… a lista cresce fácil.
Dívidas absurdas, receitas pressionadas e a mesma decisão recorrente: comprar, inflar, apostar. Planejamento virou palavra de assessoria de imprensa. Enquanto isso, o Flamengo faz o movimento inverso.
Poucas contratações, saídas relevantes, controle de folha. Não é coincidência. É organização. Estratégia que começou há mais de uma década, com sacrifícios, impopularidade e disciplina. Coisas raras no futebol brasileiro.
A ilusão da solução rápida
Antes de tudo, a pergunta central é simples: por que permitir que clubes sigam se enforcando até 2028 acreditando que a SAF resolverá tudo? A realidade já mostrou que não é bem assim. Fortaleza sentiu o baque após a saída do CEO.
Botafogo flerta com transfer ban. Vasco renegocia sua SAF em meio ao caos. A promessa de redenção instantânea virou frustração coletiva. O Flamengo levou 12 anos para se reorganizar. Os outros querem fazer em um. Não vai dar certo. Nunca deu. Nunca dará. Há exceções.
Palmeiras construiu uma gestão sólida ao longo de 14 anos. Bahia e Mirassol parecem ter entendido o tamanho do desafio. O Fluminense, mesmo tropeçando aqui e ali, trabalha com dívida controlada e algum critério.
O resto vive de fantasia. A imprensa pode dourar a pílula, especialmente em São Paulo, mas os fatos são teimosos: os clubes cariocas empilham títulos, competem internacionalmente e encaram europeus de primeira prateleira. Fair play financeiro não é castigo. É diagnóstico.
E o futebol brasileiro insiste em ignorar a doença enquanto celebra os sintomas. Clubes brasileiros ignoram o fair play financeiro, acumulam dívidas bilionárias e mantêm salários irreais. Organização virou exceção, não regra.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


