Será que não estamos percebendo a mudança na relação do futebol brasileiro com os grandes centros do mundo? Ou preferimos discutir bola a partir de bairrismos e rivalidades regionais mal disfarçadas? A pergunta, antes de tudo, é incômoda. E necessária.
Parte da imprensa ainda olha o futebol nacional com lentes antigas. Prefere o desdém fácil. Por outro lado, ridiculariza contratações. Ignora movimentos de mercado. Falta leitura do cenário. Sobra preconceito. Durante décadas, o eixo do poder esteve concentrado em São Paulo.
Capital financeiro, publicidade, grandes agências. O futebol acompanhou esse fluxo. Rio de Janeiro e Minas Gerais, por exemplo, foram esvaziados. Clubes afundaram em dívidas. Vender jogador virou regra. Contratar, exceção.
Nesse contexto, surgiram o São Paulo campeão do mundo. O Palmeiras da Parmalat. O Corinthians global de Tite. O Red Bull Bragantino “moderno”. Enquanto isso, cariocas erravam. Mineiros tentavam sobreviver. Sulistas esbarravam em gestões frágeis.
O tempo passou. E o jogo virou. Nos últimos dez anos, clubes paulistas mergulharam em dívidas bilionárias. O Palmeiras virou exceção. No Rio de Janeiro, o Flamengo se organizou. Botafogo e Vasco adotaram o modelo SAF. O Fluminense tenta equilibrar as contas.
Em Minas Gerais, por exemplo, o Cruzeiro respira aliviado novamente. A SAF começa a dar respostas. Bahia e Fortaleza cresceram economicamente. O mapa do futebol brasileiro mudou. E mudou para melhor.
Uma virada que incomoda
Flamengo, Fluminense e Botafogo, antes de mais nada, venceram títulos nacionais e sul-americanos. Disputaram o primeiro Mundial de Clubes da Fifa. O futebol carioca, antes alvo de ironia, voltou ao centro do debate. Enquanto isso, Corinthians e São Paulo enfrentaram impeachments. Má gestão.
Escândalos. O Santos segue como incógnita financeira. Isso não é regionalismo. É contexto. As ligas batem cabeça. Os estaduais perdem relevância. A seleção brasileira, aliás, ainda não envolve, nem com Carlo Ancelotti. A CBF tenta reagir com novo calendário e fair play financeiro.
Mas o ponto central vem sendo outro. O futebol brasileiro é o maior negócio esportivo do país. Falta visão coletiva. Falta profissionalismo em quem insiste no amadorismo. Em vez de criticar Flamengo, Palmeiras ou Cruzeiro por gastar, é preciso olhar para quem administra mal.
Jogadores estrangeiros querem jogar aqui. Negociações de 30 milhões de euros já não assustam o mercado da bola nacional. Antes, repatriar atletas da Premier League era utopia. Hoje, é realidade. Imagine clubes bem geridos. Campeonatos organizados. Gramados decentes. Não é sonho. É projeto.
A princípio, SAFs e ligas podem ser divisoras de águas. Mas, até lá, a crítica precisa evoluir. Ter conteúdo. Ter verdade. Quem erra não é quem cresce. São os gestores que se recusam a mudar. E, infelizmente, ainda são muitos.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte





