A pergunta incomoda. E deveria incomodar ainda mais dirigentes, torcedores e o próprio futebol brasileiro. Ela se encaixa com precisão em Marco Antonio da Silva, o Marcão. Pai, empresário e figura central da carreira de Gerson.
Nesta semana, por exemplo, algo chamou atenção. E não foi o futebol. Marcão sorria sem parar. Estava em todos os lugares. No gramado, na concentração, nas fotos oficiais. Dominava a cena. Gerson, por outro lado, parecia contido. Pouco à vontade. Quase figurante.
Curioso, considerando que se trata da contratação mais cara do futebol brasileiro. Foram 30 milhões de euros (R$ 187,3 milhões). Aliás, há metas, bônus e cláusulas. Mesmo assim, poucos sorrisos do protagonista. Muitos do empresário.
Marcão circulava como se fosse da casa. Cumprimentava jogadores na entrada em campo. Agia como membro da comissão técnica. Virou atração da tarde. Honestamente, algo estranho. Raro. Talvez inédito nesse nível.
Não se trata de ignorar histórias de superação. O caminho até o futebol profissional é duro. Envolve família, sacrifícios e renúncias. Isso é inegável. Porém, certas atitudes não combinam com o ambiente profissional. Muito menos com o futebol de alto nível.
Imagine essa cena na Premier League. Ou na Bundesliga. Difícil imaginar. No Brasil, entretanto, normalizou-se o empresário-celebridade. É o “cara” que levou Gerson ao Zenit. Depois ao Marseille. Depois ao Flamengo. Duas vezes. Agora, ao Cruzeiro.
Gênio da negociação? Sem dúvida. Movimentou cifras enormes. Ganhou muito dinheiro. Mérito reconhecido. Mas e o jogador? Gerson saiu do Flamengo após renovar contrato. Era titular, bem pago, convocado.
Vivendo grande fase. Mesmo assim, aceitou ir para um clube russo banido da Europa. Desapareceu do radar da seleção. Foi esquecido por Carlo ncelotti. Por quê? Talvez a resposta esteja fora das quatro linhas. Talvez esteja nas comissões. Nos percentuais. No estafe.
Quando o negócio fala mais alto que o futebol
A felicidade de Gerson justifica tudo isso? Deixar um clube que disputa títulos para atuar isolado? E voltar seis meses depois buscando visibilidade? Algo não fecha. Marcão, antes de tudo, procurou o Flamengo. Não foi recebido. Palmeiras estava fora. Rivalidade pesa. Sobrou o Cruzeiro. Que comprou.
Contrato de cinco anos. Salário de R$ 3,5 milhões. Fora as luvas. Gerson é grande jogador. Disso não há dúvida. Cabe em qualquer time. O problema nunca foi bola. Foi silêncio. Saiu sem explicar. Voltou sem esclarecer.
Agora, resta a pergunta final: o meia, que ainda sonha com a Seleção Brasileira, cumprirá o contrato inteiro? Sou fã do futebol de Gerson. Desejo sucesso. Mas quando o empresário parece maior que o atleta, a cautela vira obrigação.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte





