Marco Marcondes: Renato e a missão de devolver identidade a um Vasco que precisa se reencontrar

Vasco aposta em Renato Gaúcho para tentar reorganizar um clube que há anos convive com turbulência
Marco Marcondes: Renato e a missão de devolver identidade a um Vasco que precisa se reencontrar
Foto: Matheus Lima/ Vasco

O assunto da semana, antes de mais nada, era a demissão de Filipe Luís do Flamengo. Tema suficiente para ocupar debates por dias, como costuma acontecer quando um clube vencedor decide trocar o comando técnico no meio do caminho.

Porém, o futebol brasileiro tem essa habilidade peculiar de produzir histórias paralelas no mesmo instante. Enquanto um técnico caía na Gávea, outro ganhava emprego em São Januário. O Vasco, que pouco tinha a ver com o episódio do rival, acabou envolvido na famosa dança das cadeiras.

Sem muitas alternativas disponíveis no mercado, o clube aceitou as condições de Renato Gaúcho, até então fora dos planos, e fechou um contrato até o fim do ano. Ele chega com credenciais que poucos treinadores brasileiros possuem.

Como jogador e técnico, construiu carreira de respeito. Mas também carrega uma verdade incontornável: sua história como treinador ganhou forma sobretudo em dois ambientes muito específicos, Grêmio e Fluminense. Foi nesses clubes que encontrou estabilidade, respaldo e tempo.

E é justamente aí que mora a dúvida.

O Vasco vive mais um daqueles momentos em que o campo parece refletir o que acontece fora dele. A crise institucional, as indefinições sobre a SAF, a reestruturação financeira e a permanente escassez de recursos compõem um cenário pouco favorável para qualquer técnico.

Renato Gaúcho, que prefere trabalhar com autonomia, diálogo constante com o elenco e muita análise de vídeo, chega a um clube que precisa de algo talvez mais raro que talento: tranquilidade. Não é exatamente o ambiente que se encontra em São Januário.

Entre esperança e realidade

Ainda assim, a aposta existe. O torcedor vascaíno — talvez o maior patrimônio do clube — continua acreditando que alguém possa reorganizar o time dentro de campo enquanto a instituição tenta se reorganizar fora dele.

A janela trouxe reforços como Brenner, Marino Hinestroza, Alan Saldivia, Johan Rojas, Cuiabano e Claudio Spinelli, nomes que reforçam principalmente o setor ofensivo — embora não tenham sido pedidos do novo treinador.

O problema talvez esteja em outro lugar. Com a saída de Philippe Coutinho, o meio de campo perdeu seu principal articulador, justamente a posição que costuma dar sentido ao jogo. Renato Gaúcho terá pouco mais de uma semana para começar a dar respostas.

E não qualquer resposta: o Vasco aparece na parte de baixo da tabela do Campeonato Brasileiro. No futebol brasileiro, tempo costuma ser artigo de luxo. Resta saber se Renato Gaúcho chegou para iniciar um projeto — ou apenas para protagonizar mais um capítulo da nossa interminável novela.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte

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