O assunto da semana, antes de mais nada, era a demissão de Filipe Luís do Flamengo. Tema suficiente para ocupar debates por dias, como costuma acontecer quando um clube vencedor decide trocar o comando técnico no meio do caminho.
Porém, o futebol brasileiro tem essa habilidade peculiar de produzir histórias paralelas no mesmo instante. Enquanto um técnico caía na Gávea, outro ganhava emprego em São Januário. O Vasco, que pouco tinha a ver com o episódio do rival, acabou envolvido na famosa dança das cadeiras.
Sem muitas alternativas disponíveis no mercado, o clube aceitou as condições de Renato Gaúcho, até então fora dos planos, e fechou um contrato até o fim do ano. Ele chega com credenciais que poucos treinadores brasileiros possuem.
Como jogador e técnico, construiu carreira de respeito. Mas também carrega uma verdade incontornável: sua história como treinador ganhou forma sobretudo em dois ambientes muito específicos, Grêmio e Fluminense. Foi nesses clubes que encontrou estabilidade, respaldo e tempo.
E é justamente aí que mora a dúvida.
O Vasco vive mais um daqueles momentos em que o campo parece refletir o que acontece fora dele. A crise institucional, as indefinições sobre a SAF, a reestruturação financeira e a permanente escassez de recursos compõem um cenário pouco favorável para qualquer técnico.
Renato Gaúcho, que prefere trabalhar com autonomia, diálogo constante com o elenco e muita análise de vídeo, chega a um clube que precisa de algo talvez mais raro que talento: tranquilidade. Não é exatamente o ambiente que se encontra em São Januário.
Entre esperança e realidade
Ainda assim, a aposta existe. O torcedor vascaíno — talvez o maior patrimônio do clube — continua acreditando que alguém possa reorganizar o time dentro de campo enquanto a instituição tenta se reorganizar fora dele.
A janela trouxe reforços como Brenner, Marino Hinestroza, Alan Saldivia, Johan Rojas, Cuiabano e Claudio Spinelli, nomes que reforçam principalmente o setor ofensivo — embora não tenham sido pedidos do novo treinador.
O problema talvez esteja em outro lugar. Com a saída de Philippe Coutinho, o meio de campo perdeu seu principal articulador, justamente a posição que costuma dar sentido ao jogo. Renato Gaúcho terá pouco mais de uma semana para começar a dar respostas.
E não qualquer resposta: o Vasco aparece na parte de baixo da tabela do Campeonato Brasileiro. No futebol brasileiro, tempo costuma ser artigo de luxo. Resta saber se Renato Gaúcho chegou para iniciar um projeto — ou apenas para protagonizar mais um capítulo da nossa interminável novela.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


