A vitória do Flamengo sobre o Cusco FC pela Copa Libertadores da América não deveria exigir maiores explicações. Mas exigiu. E não pelo que aconteceu em campo, e sim pelo que decidiram dizer sobre o jogo.
Criou-se um ambiente de suspeita em torno de lances interpretativos — um possível cartão não aplicado, uma linha de impedimento questionada — como se isso fosse suficiente para deslegitimar o resultado. Não é.
Porque antes de qualquer polêmica, houve jogo. E nele, o Flamengo foi melhor.
Controlou a posse, criou as melhores chances, suportou uma altitude de 3.500 metros — fator que, por si só, já distorce qualquer análise mais simplista — e soube decidir quando teve oportunidade. Isso não é detalhe. É contexto. E contexto, curiosamente, tem sido ignorado.
A crítica que escolhe o que ver
O incômodo não está na crítica, mas na seleção do que se critica. O Cusco fez um jogo físico, por vezes no limite — e além dele. Faltas duras, entradas por trás, interrupções constantes. O árbitro contemporizou. Seguiu o jogo. E isso, estranhamente, não virou pauta principal.
Preferiu-se olhar para o que cabe na dúvida.
Dizer que um jogador poderia ter sido expulso é válido. Questionar a linha do VAR também. O problema surge quando a hipótese vira certeza sem prova. Quando se afirma erro admitindo, na mesma frase, que a imagem não é conclusiva.
É a crítica que não se sustenta sozinha.
Até o AS, tradicional veículo espanhol, entrou na onda. O que diz mais sobre o apetite europeu por pautas sul-americanas do que sobre o lance em si. Aqui, parte da imprensa ecoa. E amplifica.
Entre análise e torcida
Existe uma diferença essencial entre analisar e insinuar. Quando se ultrapassa essa linha, o debate perde qualidade e ganha ruído. Porque, se a mesma situação ocorresse do outro lado, dificilmente o tom seria o mesmo.
O Palmeiras também teve lances discutíveis em sua estreia. Nem por isso sua atuação foi colocada sob suspeita. Não houve narrativa de favorecimento. E não houve porque não interessava construir.
É disso que se trata.
O problema não é discordar da arbitragem. É transformar discordância em tese. É alimentar a ideia de que resultados precisam de explicação além do campo, mesmo quando o campo já disse o suficiente.
Isso contamina o torcedor, distorce o debate e, no limite, banaliza o erro real quando ele acontece. E desvaloriza a vitória do Flamengo.
Porque, se tudo vira escândalo, nada mais é.
Talvez esteja na hora de resgatar o básico: analisar o jogo antes de julgar o resultado. E o Flamengo conquistou um resultado importante jogando altitude.
E, principalmente, entender que nem toda vitória precisa de conspiração para ser explicada.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


