A conta chega. Sempre chega. O Corinthians antecipou férias, acelerou preparação e apostou tudo em um início de temporada que prometia reduzir a diferença técnica para adversários mais estruturados, como o Flamengo.
Deu certo por um instante. Veio título. Veio a sensação de que o caminho estava sendo reencontrado. Mas o futebol, esse velho enganador, cobra coerência — não atalhos.A Supercopa virou troféu e, ao mesmo tempo, cortina de fumaça.
O momento ajudou, o contexto favoreceu, e a torcida, carente de conquistas, comprou a narrativa. Nada de errado nisso. O problema é quando o curto prazo mascara o que está por trás: um clube que segue atolado em crise financeira, com gestão errática e planejamento que muda ao sabor do vento.
E aí surge a pergunta inevitável: o que fazer quando a realidade aparece?
O ciclo que nunca se encerra
O técnico da vez, Dorival Júnior, conseguiu algo raro: manteve o Corinthians competitivo em meio ao caos. Conquistou dois títulos em poucos meses, lidou com atrasos, pressão e um elenco montado aos pedaços. E, ainda assim, volta a ser questionado.
É ruim?
Ou virou o alvo mais fácil?
Porque no futebol brasileiro há uma lógica perversa: jogador oscila, dirigente erra, planejamento falha — e o técnico paga a conta. Sempre ele.
Enquanto isso, lesões se acumulam, reforços chegam aos poucos, e a tal “austeridade” aparece seletivamente, quase sempre na hora de justificar limitações, nunca de explicá-las por completo.
O preço da ilusão
Voltar antes das férias teve um custo. Físico, técnico e emocional. Ganhar naquele momento alimentou uma expectativa que o time, estruturalmente, não tem como sustentar ao longo da temporada.
E quando a queda vem, ela vem sem anestesia.
A torcida pressiona, invade CT, cobra, vaia, xinga. Como se isso resolvesse. Como se gritar mais alto organizasse um time ou equilibrasse um clube financeiramente desajustado.
Não resolve.
A troca como solução fácil
Dirigentes, pressionados, recorrem ao expediente mais simples: mudar o comando. “O clube precisa de novos ares”, dizem. E o roteiro se repete. Sai um, entra outro, e tudo recomeça — até o próximo tropeço.
A pergunta que fica é incômoda: quem serve agora para o Corinthians?
Nomes vão surgir, como sempre surgem. Mas o problema dificilmente será resolvido por quem estiver na beira do campo.
Porque, no fundo, a questão nunca foi só técnica.
E talvez nunca tenha sido.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


