Não foi um caso isolado. Nem dois. Em poucos dias, torcedores de São Paulo, Fluminense, Santos e Atlético-MG decidiram que o caminho para melhorar seus times passava por invadir, pressionar, enquadrar.
Mudam os cenários, repete-se o roteiro.
No São Paulo, o episódio mais recente. Cobrança direta, dedo em riste, tom de ultimato. No Fluminense, dias antes, o clima já havia azedado e intimidação a jogadores. No Santos, a insatisfação virou visita organizada.
No Atlético-MG, a pressão seguiu o mesmo padrão: proximidade física, discurso inflamado, ameaças a Bernard e Reinier, sensação de que aquilo, de alguma forma, faria o time alvinegro jogar melhor contra o Coritiba.
Não faz.
O que esses episódios revelam não é força da torcida, mas fragilidade institucional. Porque quando o torcedor atravessa o portão do CT com essa liberdade, é porque alguém deixou. E, pior, porque alguém se acostumou.
Criou-se no futebol brasileiro a ideia de que esse tipo de cobrança “funciona”. Que o grito mais alto resolve o que a gestão não resolve. Que constranger jogador, técnico e funcionário substitui planejamento, organização e competência.
É uma ilusão perigosa.
A arquibancada sempre foi o espaço legítimo da pressão. É ali que o jogador sente, que o técnico responde, que o resultado se transforma em aplauso ou vaia. Fora disso, o que se vê é um deslocamento de função.
Torcedor vira fiscal, dirigente vira espectador e o clube perde a referência de autoridade.
E há um detalhe que passa batido: a cobrança raramente sobe a escada certa.
Jogadores são expostos, treinadores questionados, mas dirigentes — os verdadeiros responsáveis pelas decisões institucionais e financeiras — muitas vezes seguem protegidos, blindados por relações que não se explicam.
Quando o torcedor erra o alvo, o problema cresce
Os protestos recentes são sintomas, não causa. O problema é mais profundo: gestões inconsistentes, decisões erráticas, promessas não cumpridas. Mas ao escolher o atalho da intimidação, o torcedor acaba reforçando o ciclo que critica.
Porque o dirigente pressionado não se torna melhor — se torna reativo. Troca técnico para dar resposta rápida, contrata para acalmar ambiente, assume salários impagáveis, adia decisões difíceis. E o clube segue andando em círculos.
No São Paulo, a instabilidade política ronda o futebol. No Fluminense, a queda de rendimento acendeu o alerta. No Santos, a reconstrução ainda é frágil. No Atlético-MG, a cobrança convive com expectativas altas.
Nada disso se resolve no grito.
Cobrar é direito. Pressionar faz parte. Mas intimidar é outra coisa. E quando essa linha é cruzada, o futebol deixa de ser competição para virar ambiente de tensão permanente.
Não melhora o time. Não melhora o clube. E, no fim, não melhora nem a própria torcida.
Só piora tudo.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


