BRASIL – Aos 40 anos e consagrada como a primeira lutadora campeã em cinco grandes organizações de MMA no mundo, a curitibana Cris Cyborg fará a última luta de sua carreira profissional no dia 22 de agosto. O palco será o PFL Tampa, nos Estados Unidos, onde a lenda colocará o cinturão peso-pena (até 66kg) em jogo contra a compatriota Ketlen Vieira, em um duelo que marcará a despedida definitiva de um dos maiores nomes da história dos esportes de combate.
A Coroação de um Monumento
Há um momento, na vida de gigantes, em que o eco do passado encontra o silêncio da despedida. O MMA, esse esporte voraz e implacável, raramente permite que suas lendas escolham o roteiro final de forma tão poética. Geralmente, o ídolo se arrasta, perde o tempo exato da saída e acaba cedendo à juventude impiedosa. Mas com Cris Cyborg, o destino – teimoso e reverente à altura de sua grandeza – resolveu escrever um final completamente diferente.
No dia 22 de agosto, não teremos apenas mais um evento esportivo ou uma simples defesa de título. Teremos a consagração de um verdadeiro monumento das artes marciais mistas. Fiel à sua índole de guerreira inabalável, ela não pediu exibições festivas, lutas de exibição fáceis ou roteiros melancólicos. A coroa está no centro do cage, e a caçada final está oficialmente declarada.
Olhar para a trajetória de Cris é folhear um livro de desbravadores, voltando a uma era distante em que o MMA feminino engatinhava no cenário global, sendo tratado muitas vezes com enorme desdém por cartolas e público. Ela não apenas lutava para vencer; ela impunha uma supremacia violenta, dominante e altamente técnica que obrigou o planeta a parar e assistir. São 29 vitórias esmagadoras no currículo, sendo 21 delas decretadas por nocaute brutal. Um retrospecto que impõe respeito e medo a qualquer eventual oponente.
“Cyborg é o equivalente a reis e imperadores de luvas de quatro onças; ela não construiu um império, ela unificou reinos.”
O peso de um legado pioneiro
Mas o número mais impressionante, a verdadeira joia da coroa que a eterniza no esporte, é o ineditismo absoluto de ter conquistado cinturões dominantes em cinco das maiores e mais concorridas organizações do planeta: UFC, Bellator, PFL, Invicta FC e Strikeforce. Ela desbravou um caminho que não existia. Ela abriu a picada na selva para que hoje possamos ver arenas lotadas no mundo todo vibrando com o talento de uma nova geração. Cyborg é, sem sombra de dúvidas, a precursora da violência refinada que transformou o esporte.
A ambição da desafiante: A chance de uma vida
Do outro lado dessa história épica, que tem tudo para entrar para o livro de the best of the year, está Ketlen Vieira. A manauara, um produto genuíno e casca-grossa da renomada escola Nova União, chega à organização com a faca entre os dentes e a determinação de quem não tem nada a perder. Vinda de uma saída surpreendente e inesperada do UFC – onde, mesmo figurando no topo da categoria e acumulando vitórias importantes, foi deixada de lado pelos executivos –, Vieira carrega nas costas a oportunidade de ouro que muda uma vida inteira de suor e dedicação.
A narrativa que o esporte constrói aqui é cruelmente bela e atrativa: a novata faminta diante da rainha consolidada. Ketlen tem a missão ingrata, porém infinitamente gloriosa, de arruinar a festa, rasgar o roteiro de despedida de Hollywood e iniciar seu próprio reinado de forma apoteótica, tomando o título diretamente das mãos de uma lenda viva.
O CEO da PFL, John Martin, resumiu com precisão cirúrgica o peso e a atmosfera dessa noite histórica: “Ela é uma pioneira não somente do MMA feminino, mas das artes marciais mistas como um todo. E tem sido um privilégio para a PFL tê-la como uma campeã merecedora.” —
Análise Editorial: O último ato da rainha
Para a nossa exigente coluna na RTI Esporte, fica um sentimento inevitavelmente agridoce ao cobrir essa notícia. O esporte perde, ainda que no tempo certo, a sua força mais indomável. Foram mais de duas décadas dedicadas a trocar socos potentes, quedas plásticas e chutes contundentes que forjaram não apenas uma atleta multicampeã, mas um pedaço fundamental da própria história esportiva brasileira.
Quando o gongo soar no final de agosto, os fantasmas do passado, as dezenas de vítimas de seus nocautes assustadores e toda a mística de uma carreira sem paralelos estarão ali, cercando o perímetro do cage. Cyborg de um lado, Vieira do outro. A despedida melancólica da Rainha contra a fome insaciável e a ambição da desafiante.
Dentro da jaula da PFL, quando a porta de ferro bater e a luta começar, não haverá espaço para contemplação, melancolia ou reverências prolongadas. A lenda se despede, mas a lenda exige sangue, luta franca e coroação até o último segundo. Façam as suas apostas, senhoras e senhores, porque o último ato da maior era dos combates está prestes a se desenrolar diante de nossos olhos.
