O chamado “Dia D” da Seleção Brasileira talvez revele menos sobre os 26 nomes que serão anunciados nesta segunda-feira e mais sobre o tamanho da reconstrução que Carlo Ancelotti terá pela frente até o início da Copa do Mundo.
O Brasil chega ao Mundial ainda procurando identidade, liderança técnica e alguém capaz de assumir protagonismo sem que tudo inevitavelmente volte ao nome de Neymar.
E isso deveria preocupar mais do que qualquer possível ausência.
Passaram-se três anos e meio desde a eliminação no Catar. Tempo suficiente para uma renovação consistente. Mas a Seleção atravessou esse período perdida entre improvisos, vaidades políticas e decisões amadoras dentro da CBF.
Tite saiu com antecedência anunciada. Ainda assim, ninguém preparou sucessão alguma. Preferiram transformar a maior camisa do futebol mundial em um laboratório de experiências frágeis.
Vieram interinos, atuações sem padrão, resultados constrangedores e uma instabilidade institucional que contaminou o campo. O afastamento de Ednaldo Rodrigues apenas expôs uma crise que já era percebida em cada Data Fifa.
A Seleção deixou de intimidar.
E talvez esse seja o maior retrato da decadência recente.
Carlo Ancelotti chega justamente para devolver racionalidade ao processo. Sua presença no jogo entre Athletico e Flamengo, no último fim de semana, pareceu menos uma busca desesperada por nomes e mais uma tentativa de observar ambiente, comportamento e competitividade.
Os escolhidos, muito provavelmente, já estavam definidos.
O italiano viu Pedro marcar novamente, acompanhou a regularidade de Léo Pereira e percebeu Lucas Paquetá mais leve fisicamente. Mas nada ali parecia suficiente para resolver sozinho o principal problema da Seleção: a ausência de um protagonista incontestável.
Porque Neymar segue ocupando esse espaço até quando não joga.
Não necessariamente pelo que entrega hoje em campo, mas pela incapacidade do futebol brasileiro de produzir um sucessor natural. O camisa 10 virou quase uma dependência emocional coletiva.
Uma Seleção que já não mete medo
A discussão sobre levar ou não Neymar à Copa revela justamente isso. O Brasil ainda procura segurança no passado porque não encontrou convicção no presente.
Carlo Ancelotti entende rapidamente o cenário que herdou. Há talento espalhado pela Europa, jogadores competitivos e opções interessantes. Mas falta aquilo que historicamente separava o Brasil dos demais: autoridade futebolística.
Hoje a Seleção parece mais uma equipe tentando convencer o mundo — e a si mesma — de que ainda pode ser favorita.
O peso da camisa continua enorme. O problema é que tradição sozinha não ganha Copa do Mundo.
E talvez por isso o anúncio desta segunda-feira carregue mais expectativa do que confiança.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte
