O Flamengo foi a Medellín para disputar mais uma rodada de Copa Libertadores da América. Acabou colocado no centro de um espetáculo de desorganização, violência e omissão institucional.
A partida contra o Independiente Medellín tinha importância esportiva clara, mas sem pressão extrema para o lado rubro-negro. Um empate mantinha a liderança do grupo e deixava a classificação muito próxima. Já os colombianos jogavam sob tensão, pressionados pela campanha ruim e pela revolta da própria torcida.
Mas o futebol desapareceu rapidamente.
Ainda durante o hino já era possível perceber que algo estava fora do controle. Lasers apontados para jogadores e arbitragem, objetos arremessados e um ambiente claramente hostil. Mesmo assim, a bola rolou.
E aí mora o primeiro grande absurdo da noite.
Com apenas três minutos, a arquibancada explodiu em caos. Bombas, invasões, grades derrubadas, fogo e correria. Jornalistas precisaram deixar suas posições. A segurança ficou visivelmente comprometida. O jogo foi interrompido e os atletas seguiram para os vestiários.
O mais grave é que nada disso parecia inesperado.
Informações divulgadas durante a paralisação apontavam que autoridades locais já haviam alertado para o risco de tumulto. Existia, inclusive, recomendação para que a partida ocorresse com portões fechados. A sugestão teria sido rejeitada por dirigentes do clube colombiano.
A Conmebol aceitou seguir normalmente.
Mais uma vez, a entidade escolheu apostar no improviso.
Enquanto o estádio seguia em clima de guerra, a organização insistia em ganhar tempo. Primeiro quarenta e cinco minutos. Depois mais espera. A sensação era de uma tentativa desesperada de salvar o jogo a qualquer custo, mesmo sem garantia real de segurança.
O Flamengo permaneceu no estádio porque o regulamento praticamente impede a saída sem confirmação oficial do cancelamento. Ou seja: além da insegurança, ainda existe o receio de punição esportiva.
O problema não foi a suspensão: foi permitir que o jogo começasse
A Libertadores insiste em conviver com episódios que deveriam ser inadmissíveis em qualquer competição séria.
Quando fatos assim acontecem no Brasil, o discurso costuma ser duro. Fala-se em vergonha, descontrole e incapacidade organizacional. Mas, dentro da lógica da Conmebol, a violência frequentemente é tratada como “ambiente de Libertadores”.
Não é ambiente.
É fracasso administrativo.
O Independiente Medellín deve ser responsabilizado. Mas a Conmebol também precisa responder publicamente por ter autorizado uma partida sem condições mínimas de segurança.
Porque o maior escândalo da noite não foi o jogo ter sido suspenso.
Foi ele ter começado.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte
