A relação entre artes marciais, saúde e qualidade de vida ganha novos contornos quando observada por quem vive esses dois mundos com profundidade. Nesse sentido, o médico otorrinolaringologista e Grão-Mestre 9º Dan de Taekwondo, Dr. Marcos Rogério, construiu uma trajetória que une ciência, disciplina e tradição marcial — e demonstra, na prática, que envelhecer bem também pode ser um ato de consciência corporal.
Das origens à consciência corporal
Seu primeiro contato com as artes marciais aconteceu ainda na infância, aos 10 anos, em plena década de 1970. Naquele período, como ele próprio recorda, o objetivo era direto e pragmático.
“Naquela época, a busca era muito clara: aprender defesa pessoal”, relembra.
Com o passar dos anos, contudo, essa motivação inicial deu lugar a uma percepção mais ampla: o impacto profundo e duradouro do treinamento marcial na saúde física, mental e emocional.
“Mesmo com o avanço da idade, minha saúde sempre se manteve muito bem. Além disso, nos estudos — principalmente nas áreas biológicas — passei a associar tudo o que beneficiava o ser humano aos meus treinamentos”, explica.
Saúde que vai além do físico
Para o Grão-Mestre, qualidade de vida não se limita apenas ao funcionamento do corpo. Pelo contrário: ela está diretamente ligada às relações construídas dentro do ambiente marcial.
“Treinar, aprender, ensinar, competir… tudo isso é extremamente enriquecedor. Afinal, o segredo da velhice são as relações, e a arte marcial também oferece isso”, afirma.
Assim, o dojô deixa de ser apenas um espaço de prática física e passa a funcionar como um ambiente de convivência, pertencimento e troca de experiências — fatores decisivos para a longevidade saudável.
Depois dos 40, ainda dá para começar?
Uma das dúvidas mais recorrentes entre adultos é se ainda é possível iniciar ou retomar o Taekwondo após os 40 anos. A resposta do Grão-Mestre é direta e objetiva: sim, desde que haja condução adequada.
Recentemente, ao retomar uma escola de artes marciais, Dr. Marcos se surpreendeu com o perfil do público.
“Sempre trabalhei muito com crianças, adolescentes e jovens. Portanto, achei que esse seria o público predominante. No entanto, o que vimos foi um grande número de pessoas que haviam parado de treinar há muitos anos e decidiram voltar — muitos com mais de 40 anos.”
Treinamento individualizado e responsabilidade
Segundo ele, a adaptação tem sido positiva justamente por conta de um trabalho personalizado. “Uso muito minha formação médica para montar o que chamo de TD: trabalho dirigido, específico para cada aluno. O ser humano é individualizado. Assim, você não deve ter o outro como referência, mas a si próprio.”
Além disso, ele destaca que o Taekwondo é uma arte marcial extremamente complexa e versátil.
“Existe treinamento saudável para 40, 50, 60 anos… desde que seja bem conduzido. Por isso, o professor continua sendo a ferramenta fundamental nesse processo.”
Filosofia, graduação e maturidade marcial
Do ponto de vista da saúde integral, os ganhos são amplos. Embora qualquer arte marcial possa trazer benefícios ao corpo, à mente e ao espírito, o Taekwondo tradicional preserva, na visão do Grão-Mestre, um diferencial essencial: a filosofia.
“Os treinamentos mais tradicionais priorizam a sabedoria e a consciência da própria ignorância. É assim que, com o tempo, se cresce por meio das experiências.”
Nesse contexto, o sistema de graduações deixa de ser apenas simbólico e passa a cumprir um papel pedagógico. “É uma escala que organiza o aprendizado ao longo da vida.”
Sua própria trajetória ilustra esse processo. Aos 15 anos, já auxiliava e ministrava aulas. Após os 45, a graduação passou a representar a aplicação prática de décadas de vivência a serviço da escola e dos alunos.
Os erros mais comuns — e perigosos
Sob a ótica médica, Dr. Marcos faz um alerta claro sobre os riscos do treinamento sem orientação qualificada.
“Existe um ditado antigo: ‘de médico e louco, todo mundo tem um pouco’. Hoje, infelizmente, isso se agravou. Todo mundo virou mentor.”
Segundo ele, o erro mais grave está, muitas vezes, no próprio professor, que não sabe dosar limites e adota condutas para as quais não possui formação suficiente. Como consequência, isso pode gerar, a médio e longo prazo, lesões graves no aluno.
Disciplina, origem e longevidade
Para quem deseja iniciar ou retomar o Taekwondo buscando saúde, disciplina e longevidade — e não apenas performance competitiva — o conselho é claro: observar atentamente o ambiente.
“Veja o lado disciplinar. O silêncio na prática, o respeito ao local de treino, a energia do espaço. Tudo isso diz muito.”
Além disso, ele reforça a importância da origem de quem ensina.
“Não basta ser um ‘mestre de ocasião’. A origem é fundamental, assim como a família que cada um carrega dentro de si.”
Um caminho que amadurece com o tempo
Mais do que chutes e golpes, o Taekwondo, quando bem orientado, se transforma em um caminho de equilíbrio, consciência e continuidade. Portanto, não é uma arte que termina na juventude — ela amadurece com o tempo.




