O Brasil entra em campo contra a Noruega com uma única obrigação: vencer. Não há espaço para discursos motivacionais nem para contas complicadas. É ganhar, seguir vivo e esperar Inglaterra ou México nas quartas de final. O resto é consequência.
Mas a partida desta noite escancara um problema que deveria preocupar mais do que qualquer esquema tático. A Copa do Mundo está sendo disputada em condições que desafiam o bom senso. E a Fifa faz de conta que isso é apenas um detalhe.
Enquanto a seleção tenta sobreviver dentro de campo, parte dos Estados Unidos enfrenta uma onda de calor histórico. Nova York, Nova Jersey e Washington registram temperaturas próximas dos 42 graus, com sensação térmica ainda maior.
Há cidades cancelando eventos do feriado de Independência. Autoridades pedem economia de energia para evitar apagões. O alerta é público. No futebol, porém, a lógica parece outra. O calendário permanece intacto. Os horários pouco mudam. O espetáculo não pode esperar. Curioso.
Quando o assunto é marketing, a Fifa demonstra uma eficiência admirável. Cada detalhe é pensado para potencializar receitas, patrocínios e audiência. Mas, quando a discussão envolve a saúde de atletas e torcedores, sempre aparece um discurso burocrático dizendo que “tudo está sendo monitorado”.
Monitorado por quem? E até quando?
Não é novidade que calor extremo interfere no rendimento físico. Reduz intensidade, aumenta o desgaste e amplia o risco de lesões. Ainda assim, insiste-se em vender a imagem de uma competição perfeita.
Como se bastassem pausas para hidratação para resolver um problema que é estrutural. Isso não diminui a responsabilidade do Brasil. Se pretende disputar o título, precisa vencer a Noruega independentemente da temperatura.
Seleção campeã supera adversários, ambientes hostis e pressão. Mas não convém normalizar o que claramente não é normal. Os próprios americanos vivem uma rotina diferente nestes dias. Muitos eventos do 4 de Julho foram cancelados justamente pelo risco que o calor representa.
A população foi orientada a evitar exposição prolongada ao sol. Vale para shows, festas e atividades ao ar livre. Para uma Copa do Mundo, aparentemente, vale menos. É uma contradição muito difícil de defender.
O futebol virou um negócio bilionário, e ninguém questiona isso. O problema começa quando o negócio passa a valer mais do que quem entra em campo. Tomara que o Brasil avance. Tem elenco para isso. Mas seria um erro tratar o resultado como a única notícia da noite.
Se o protagonista voltar a ser o calor, a culpa não será da Noruega nem do Brasil. Será de quem insiste em acreditar que o espetáculo pode ignorar a realidade. Até o dia em que ela cobrar uma conta alta demais.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte


