Chegamos às semifinais da Copa do Mundo com aquilo que qualquer organizador sonharia. Argentina, Inglaterra, França e Espanha disputam duas vagas na decisão. O roteiro é excelente. A questão é que a Fifa conseguiu tirar o protagonismo da bola e colocá-lo nas próprias decisões.
Era para o debate estar concentrado no futebol apresentado por cada seleção. França e Espanha, por exemplo, construíram campanhas consistentes e convenceram pelo desempenho. A Argentina cresceu ao longo da competição, enquanto a Inglaterra confirmou a força de um elenco qualificado.
Em vez disso, a Copa do Mundo passou a ser acompanhado por uma sucessão de discussões sobre arbitragem. Não por causa de um erro isolado, algo natural no futebol, mas pela repetição de critérios diferentes para lances muito parecidos. É isso que alimenta a desconfiança.
O VAR surgiu para reduzir injustiças e oferecer mais segurança às decisões. Nesta Copa do Mundo, em muitos momentos, produziu justamente o efeito contrário. Quanto mais a tecnologia foi utilizada, maior ficou a sensação de que faltou uniformidade na interpretação das regras.
A Argentina acabou no centro desse debate. Não porque sua classificação seja fruto apenas de decisões da arbitragem. Seria desonesto dizer isso. A equipe tem qualidade suficiente para disputar qualquer semifinal. O problema é que seus jogos passaram a deixar dúvidas que poderiam ter sido evitadas.
Não se trata de criar teorias conspiratórias. Trata-se de preservar a credibilidade da competição mais importante do futebol. Quando jogadores, treinadores, jornalistas e torcedores terminam a partida discutindo o árbitro, quem perde é o próprio torneio.
Também chamou atenção a condução institucional da Fifa diante de episódios polêmicos. Em vez de esclarecer rapidamente os critérios adotados, a entidade preferiu o silêncio. Transparência não pode ser apenas um discurso de ocasião.
Quando a confiança desaparece, o espetáculo perde valor
A Fifa administra um evento bilionário e protege seus interesses comerciais com enorme competência. Patrocinadores, direitos de transmissão e marketing funcionam quase sem falhas. O mesmo rigor, porém, parece não existir quando o assunto é arbitragem.
Não faltam tecnologia, câmeras ou profissionais preparados. O que falta é coerência. O torcedor aceita ser derrotado pelo adversário. O que não aceita é sair do estádio ou desligar a televisão sem entender por que um lance recebeu determinado julgamento e outro, semelhante, teve desfecho diferente.
As semifinais prometem jogos extraordinários. Talvez sejam os melhores confrontos desta Copa. Mas também representam uma oportunidade para a Fifa recuperar parte da confiança que perdeu ao longo do torneio.
Porque o futebol suporta zebras, eliminações inesperadas e até erros humanos. O que não suporta é a sensação de que o critério muda conforme a camisa, o momento ou a conveniência. Quando isso acontece, a taça continua valendo. A credibilidade, não.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte
