A Espanha fez o que uma campeã costuma fazer: jogou futebol. Não precisou de marketing, favoritismo ou discursos grandiosos. Bastaram organização, intensidade e personalidade para dominar uma França irreconhecível, sem ideias e incapaz de justificar o rótulo de principal favorita ao título.
O placar apenas confirmou o que se viu durante os noventa minutos. A seleção espanhola controlou os espaços, soube sofrer quando necessário e acelerou o jogo na hora certa. De quebra, usou contra os franceses justamente a arma que costumava ser a maior virtude deles: a velocidade na troca de passes.
A derrota da França também desmontou um roteiro que parecia conveniente para muita gente. Uma final entre franceses e argentinos mobilizaria audiências e narrativas prontas. Felizmente, o futebol ainda insiste em contrariar quem acredita que o espetáculo pode ser escrito antes da bola rolar.
Agora resta conhecer o adversário da Espanha. Argentina e Inglaterra disputam a outra vaga em um confronto que, curiosamente, já começa cercado por um debate que pouco tem a ver com futebol. Nos Estados Unidos, fala-se mais sobre a arbitragem do que sobre a partida.
A discussão gira em torno do árbitro escalado para a semifinal. Se será brasileiro, se agrada um lado ou incomoda o outro, se existe pressão externa ou não. Quando o juiz passa a ocupar o centro das atenções antes da bola rolar, é sinal de que a competição perdeu parte da sua credibilidade.
Também não ajuda o comportamento recente de alguns protagonistas. Messi continua sendo um dos maiores jogadores da história, mas isso não o coloca acima das críticas. Algumas atitudes durante a Copa alimentaram um ambiente de antipatia que simplesmente não existia no início do torneio.
Enquanto isso, a Inglaterra faz o caminho oposto. Trabalha em silêncio, evita o excesso de exposição e aposta todas as fichas em Harry Kane. A seleção inglesa parece ter entendido que, em Copa do Mundo, o melhor marketing continua sendo vencer.
Uma Copa do Mundo rica em dinheiro e pobre em autocrítica
Nos bastidores, a Fifa prefere destacar o faturamento recorde da competição. É compreensível. Afinal, transformou a Copa em uma máquina de arrecadação. O curioso é que o discurso triunfal perdeu força justamente quando aumentaram as críticas à organização do torneio.
Quem acompanha o Mundial de perto sabe que nem tudo saiu como planejado. Houve estádios com espaços vazios no início da competição, distribuição de ingressos, reclamações sobre o calor extremo e uma estrutura de trabalho que desagradou boa parte da imprensa internacional.
A entidade dificilmente admitirá esses problemas. Nunca admitiu. Também chama atenção o esforço para seduzir o público americano com artistas, celebridades e ex-atletas em praticamente todos os eventos oficiais. A estratégia faz sentido. O resultado, nem tanto.
O americano médio continuou muito mais interessado na própria seleção do que na Copa. O futebol ainda não ocupa, por lá, o espaço que a Fifa imaginava conquistar. E isso ficou evidente muito antes das semifinais.
A Espanha já garantiu sua vaga na decisão com autoridade. Agora espera Argentina ou Inglaterra. Mas, depois de tantas polêmicas, o maior desejo de quem gosta de futebol é simples: que a final seja decidida apenas pela bola.
Porque esta Copa do Mundo já acumulou suspeitas demais. A Fifa ainda tem a chance de salvar o desfecho de um grande torneio. Basta permitir que o protagonista volte a ser o futebol, e não quem segura o apito.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte