A Copa do Mundo sempre teve o poder de transformar jogadores em lendas em apenas 90 minutos. Porém, poucas histórias recentes conseguem ser tão marcantes como a de Vozinha. Aos 40 anos, o goleiro de Cabo Verde não apenas segurou o empate histórico diante da poderosa Espanha, como também conquistou o planeta do futebol. A atuação foi simplesmente monumental.
Segundo o Sofascore, Vozinha realizou sete defesas, recuperou 14 bolas, venceu dois duelos e evitou 1,46 gols de acordo com o índice de gols esperados (xG). A nota de 9,7 atribuída pela plataforma tornou-se a maior já registrada por um jogador acima dos 40 anos em uma Copa do Mundo, superando nomes históricos da posição como Pat Jennings, Peter Shilton e Dino Zoff.
O impacto ultrapassou as quatro linhas. Durante a transmissão da partida, o goleiro cabo-verdiano explodiu nas redes sociais, saindo de alguns milhares de seguidores para ultrapassar a marca dos cinco milhões. O mundo queria saber quem era aquele homem que desafiou uma das melhores seleções do planeta.
“Está entre os melhores profissionais com quem trabalhei”, revela Pedro Tiba
Mas quem conhece Vozinha há muito tempo garante que o mundo está apenas descobrindo alguém que sempre foi especial. Pedro Tiba, ex-meio-campista português que encerrou a carreira em 2024/25 e dividiu o vestiário do GD Chaves com o goleiro, não escondeu a emoção ao falar sobre o antigo companheiro que chegou à marca dos 90 jogos na Seleção de Cabo Verde.
“Joguei 20 anos como profissional e o Vozinha está entre os melhores profissionais com quem trabalhei. Sabíamos que Cabo Verde ia enfrentar uma das melhores seleções do Mundo, mas a exibição dele foi contra todas as expectativas”, disse Tiba, em entrevista à Agência RTI Esporte, antes de prosseguir:
“Fez uma atuação absolutamente brilhante, que vai ficar guardada para sempre para ele e para todos os cabo-verdianos. Nós, portugueses, que somos amigos dele e jogámos com ele, sentimos um orgulho especial.”
O homem que nunca desistiu do sonho
A história de Vozinha vai muito além de um grande momento na Copa do Mundo. Criado pelos avós e enfrentando dificuldades de vários níveis desde cedo na vida, o goleiro chegou a trabalhar como pedreiro antes de conseguir construir uma carreira no futebol profissional.
Foi uma trajetória feita de persistência. Enquanto muitos desistiriam perante os obstáculos, Vozinha continuou a perseguir o sonho de viver do futebol e acabou por se tornar um “herói nacional” em Cabo Verde. Para Pedro Tiba, o reconhecimento mundial é a recompensa merecida por uma vida de sacrifício.
“É mais do que merecido. Ele apareceu tarde no futebol profissional, apesar da enorme qualidade que sempre teve. A principal característica dele, sem sombra de dúvida, é que tem um coração gigante. É uma pessoa extraordinária e merece tudo o que está acontecendo”, afirmou.
A maturidade para lidar com a fama repentina
Depois de uma atuação que correu o mundo, muitos jogadores poderiam deixar-se levar pela atenção mediática. O antigo meia que chegou a ser chamado à Seleção Portuguesa em 2014 mas não entrou em campo, porém, acredita que isso não acontecerá com o antigo colega.
“Ele é uma pessoa muito tranquila, muito experiente e tem os pés no chão. Não vai mudar por causa disso. Sempre foi alguém muito equilibrado e acho que vai continuar exatamente igual”, explicou o ex-jogador.
Agora, a seleção de Cabo Verde já entrou para a história ao conquistar o primeiro ponto da sua trajetória em Copas do Mundo. Mais do que o resultado, a seleção africana ganhou projeção e, principalmente, respeito.
“Eles já fizeram história. Agora têm de aproveitar o momento, porque tudo o que vier daqui para a frente será acrescentar ao que conseguiram contra a Espanha. Depois desse jogo, os adversários vão olhar para Cabo Verde de outra maneira”, concluiu Tiba.
Aos 40 anos, Vozinha passou de um homem que carregava cimento nas mãos para um goleiro que carregou nos ombros o sonho de uma nação inteira. A Copa do Mundo encontrou mais um herói improvável, e talvez nenhum deles tenha uma história tão bonita quanto a do gigante dos “Tubarões Azuis”.
*André Freixo, enviado especial da Agência RTI Esporte, direto de Portugal